"Mea Culpa"
Esta, minha mãe contou-me. Quando aconteceu, eu deveria ter quatro ou cinco anos de idade. Estávamos hospedadas na residência da família Buela, bem aos pés da Matriz do Sagrado Coração de Jesus – Padroeiro da Cidade de Valença – Bahia.
Alguém bateu à porta. Eu, muito espevitada, fui atender.
Pela janela, eu e a visita mantivemos o seguinte diálogo:
- Sissi está aí?
- Tá.
- Vá chamar. Diga que Dundum está aqui.
- Sim.
Rodei nos calcanhares e...
- Sissi, Dundum “ta aí?”.
Sissi, a dona da casa, suja, molhada, pois estava lavando a cozinha, caiu na besteira de monologar: MERDA!...
Voltei trazendo a resposta.
Visita: - Você chamou?
- Chamei.
Visita: - E ela?
Eu: - Disse merda.
Visita (vermelha que nem pimentão maduro): - Vá dizer pra ela que eu vou-me embora, mas deixo aqui o presente que ela me mandou. Nesta casa, nunca mais meus pés hão de pisar. Acabou nossa amizade!...
Minha mãe veio chegando, para receber a melhor amiga de Sissi. Encontrou o “frogodó” formado (entenda frogodó como confusão, bagunça...).
Tentando remediar a situação, falou: - Esta menina é assim! Tem uma imaginação muito fértil. Não sei a quem saiu... Inventa coisas... (tadinha de mim!...).
A visita, fula de raiva, retrucou: - Deixe de conversa mole. Criança não mente. Repete o que ouve...
- Você e Sissi lambuzem-se com a merda que me mandaram (sobrou, também, pra minha mãe...).
Em verdade, nunca mais as amigas se procuraram. Acho que nem mesmo na eternidade, onde ambas se encontram, já faz um tempão!...
Quanto a mim, mais de setenta anos depois, a “imaginação menos fértil”, estou vivendo e podendo contar a embrulhada que arrumei.
“Mea culpa”. Mas eu era uma criança!...
Macária S. Andrade